Vigilância do tétano acidental no estado de Santa Catarina no período de 2007 a 2016

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O tétano é uma doença aguda não contagiosa, prevenível por vacinação. A infecção é causada pelas toxinas do bacilo Clostridium tétano e se apresenta na forma de Tétano Acidental (TA) e Tétano Neonatal (TNN). O Tétano Acidental tem distribuição universal independente de sexo e idade, constitui-se de quadro grave e apresenta altas taxa de letalidade. A imunidade permanente é conferida exclusivamente pela vacina, disponível em toda a rede pública. Estudos apontam para uma relação estreita entre as condições de vida e padrões culturais da população, influenciando decisivamente nos indicadores epidemiológicos de tétano, que se mantêm como um grave problema de saúde pública. Com elevado custo social e econômico, os tratamentos, prolongados, geralmente ocorrem em Unidades de Terapia Intensiva. O presente informe é elaborado a partir de registros de dados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SinanNet) - SES/SC e tem por objetivo descrever o perfil do Tétano Acidental em Santa Catarina, no período compreendido entre 2007 a 2016.

 

Tabela 1- Casos confirmados e Incidência de Tétano Acidental segundo ano de notificação. Santa Catarina - 2007 a 2016.

Fonte: SINAN/DIVE/SES/SC

 

Na série histórica de 2007 a 2016 foram notificados 191 casos suspeitos de Tétano Acidental e confirmados 131 casos no estado de Santa Catarina (Tabela 1). A incidência variou de 0,15/100.000 habitantes (2007) a 0,26 (2008). A partir de 2008 manteve-se a média de 13,5 casos confirmados ao ano.

 

 

Figura 1 – Distribuição de casos de Tétano Acidental conforme a faixa etária em Santa Catarina - 2007 a 2016. Fonte: SINAN/DIVE/SES/SC

 

Na classificação de casos segundo a faixa etária (Figura 1), os registros demonstram que a doença no estado de Santa Catarina ocorreu em diferentes idades. No entanto, o maior número de casos corresponde a faixa etária de 50 a 64 anos.

A distribuição proporcional segundo o sexo (78% das pessoas acometidas são do sexo masculino e 22% do sexo feminino) indica que a chance de os homens adoecerem por Tétano Acidental no estado de Santa Catarina é de 2,84 vezes maior do que as mulheres.

Quanto à escolaridade dos indivíduos, 58% declararam ter o ensino fundamental; 14% o ensino médio e a educação superior; 6% são analfabetos e 21% não tem esta variável registrada.

 

Tabela 2 – Distribuição e percentual dos casos confirmados de Tétano Acidental segundo a ocupação. Santa Catarina - 2007 a 2016.

Fonte: SINAN/DIVE/SES/SC

 

Entre as diversas categorias profissionais (Tabela 2) citadas nos registros das fichas de investigação, a predominância das ocupações foi de aposentados e pensionistas, com 27%; seguidos de trabalhadores que desenvolvem suas atividades na zona rural (agricultores, caseiros, trabalhadores volantes da agricultura e trabalhadores no ramo agropecuário), com 14,5%. Trabalhadores da construção civil (pedreiros, serventes) perfazem 7,6% do total de casos e somadas todas as outras ocupações, totalizam 30,5 %. Observa-se um percentual significativo de 20,6% de indivíduos sem registro de ocupação.

 

Tabela 3 – Distribuição e percentual dos casos confirmados de Tétano Acidental, segundo a possível causa e local do ferimento. Santa Catarina - 2007 a 2016.

Fonte: SINAN/DIVE/SES/SC

 

As possíveis causas do ferimento (51,9%) foram por perfuração, seguidas de escoriação (15,2%), laceração (11,4%) e queimadura (2,3%) (Tabela 3). As perfurações perfazem o maior número de casos, possivelmente por apresentar diferentes instrumentos que facilitam os ferimentos (prego, arma de fogo, faca, arame farpado, etc.). As outras causas descritas na ficha de investigação fazem referência a arranhões, farpas, pé diabético, quedas, fraturas, úlceras de pernas, tunga penetrans, etc., e correspondem a 19% dos casos. Quanto ao local do ferimento, os membros inferiores apresentaram maior frequência (69,0%), seguido dos membros superiores (24,4%) e demais locais (6,7%).

 

Tabela 4 – Distribuição de óbitos e taxa de letalidade de Tétano Acidental no estado. Santa Catarina - 2007 a 2016.

Fonte: SINAN/DIVE/SES/SC

 

No que se refere à distribuição dos óbitos (Tabela 4) ao longo da série, ocorreram, em média, 6,4% óbitos ao ano; a taxa de letalidade variou de 62,5% no ano de 2008 a 16,6% em 2014. No Brasil, a taxa de letalidade no ano de 2016 foi de 32,7%; enquanto o estado de Santa Catarina ultrapassou esta taxa com o indicador de 33,3%.

 

Tabela 5 – Distribuição de óbitos por Tétano acidental segundo município residência. Santa Catarina - 2007 a 2016.

Fonte: SINAN/DIVE/SES/SC

 

Quando avaliado o número de óbitos por município de residência (Tabela 5), constata-se que ocorreram 49 óbitos em 39 municípios catarinenses; o número de óbitos variou de 1 a 5 nos referidos locais de residência.

 

Tabela 6 – Situação vacinal* dos casos confirmados de Tétano Acidental antes da lesão. Santa Catarina - 2007 a 2016.


Fonte: SINAN/DIVE/SES/SC *(DPT, DT, Dt, TT ou Tetravalente)

 

Em relação à situação vacinal, 45 indivíduos (34,1%) referem histórico de vacina, independente do número de doses. Observa-se, através dos registros, que o percentual de doses recebidas de vacina diminui conforme o maior número de doses recomendadas. É importante e significativo o registro de nunca vacinados e ignorados, que correspondem a 65,6% dos casos (Tabela 6).

Figura 2-Principais manisfestações clínicas dos casos confirmados de tétano acidental. Santa Catarina - 2007 a 2016. Fonte: SINAN/DIVE/SES/SC


Entre as principais manifestações clínicas dos casos de Tétano Acidental registradas na ficha de investigação (Figura 2), o trismo foi a manifestação mais frequente, com 84,7 % do total de casos. A manifestação de menor frequência foi riso sardônico, presente em apenas 29% dos casos. Em relação ao local provável da fonte de infecção, 56,5% dos casos ocorreram nos domicílios; seguido de 17,6% no trabalho; 11,4% em via pública; 4,6 % no campo e 3,8% em outros locais. Quanto à zona de residência, 80% dos acometidos residem na zona urbana e 20% dos registros referem residência na zona rural.


CONSIDERAÇÕES

O tétano acidental permanece como importante problema de saúde pública no estado de Santa Catarina. Apesar da baixa incidência, ainda mantém a média de casos ao longo dos anos, com oscilações nas taxas de letalidade. Em períodos específicos, a letalidade no estado supera os dados nacionais (ano de 2016: Brasil (32,6 %); Santa Catarina (33,3 %)).

O uso de dados secundários utilizados para traçar este breve perfil do tétano no estado pode apresentar limitações devido a digitações incorretas, ignorados/branco, dificuldade na interpretação dos dados clínicos, entre outros fatores; no entanto, as informações se assemelham aos dados do Brasil quanto à faixa etária, ocupação, histórico vacinal, zona de residência, etc.

Entre os maiores desafios para diminuir a ocorrência de casos estão a não adesão da população à vacinação e o diagnóstico clínico tardio, que contribuem para o agravamento da situação e prognóstico desfavorável.

Considerando que a vacina é a única medida eficaz, eficiente e disponível em toda a rede pública, é necessário que os serviços de saúde promovam ações para manter as coberturas vacinais adequadas, aproveitando todas as oportunidades e facilitando o acesso da população às doses recomendadas no calendário vacinal (campanhas de influenza, vacinação de adultos, estratégias para a saúde do trabalhador, viajantes, etc).

Objetivando reduzir a incidência de casos e diminuir sofrimentos, poupando vidas, faz-se necessário:

• A capacitação de profissionais de saúde quanto às condutas adequadas de profilaxia e terapêutica de acordo com o tipo de ferimento e a situação vacinal;

• O registro de informações consistentes nas fichas de investigação para conhecimento real dos casos;

• A desconstrução de estereótipos (de que casos de tétano ocorrem somente na zona rural) com ferimentos e objetos específicos.

 

EXPEDIENTE

O informativo Epidemiológico Barriga Verde é um boletim da Diretoria de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina.

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